20.3.17

uma realidade que as crianças (infelizmente) desconhecem

Esta fotografia foi roubada da página de facebook de uma antiga vizinha e amiga de infância que morou muitos anos na praceta onde ainda moram os meus pais. Na legenda lamentou a falta de tudo aquilo com que nós crescemos. Opinião que foi partilhada por diversas pessoas que cresceram connosco. E o que falta aqui?


Pouco mais do que uma árvore sobrevive no meio da praceta que agora deu vida a um parque de estacionamento que garante mais meia dúzia de lugares aos moradores. Cresci com aquele centro a ser o centro, e peço desculpa pela redundância, das minhas brincadeiras. Onde estão aqueles carros estacionados existiam bancos de jardim, primeiro de madeira, mais tarde num material de qualidade duvidosa. Esses bancos serviam para que por lá estivéssemos sentados a conversar. Ou então eram balizas para jogos de futebol. Dois contra dois, um contra um, ou quatro equipas a jogar ao mesmo tempo, sendo que quem sofresse golo ia saindo até restar apenas o vencedor.

Além disso, das seis árvores que ali estavam, quatro serviam para criar um campo de basebol. Bastava um pau e uma bola de ténis. Onde está aquela espécie de X branco era onde ficava o batedor. Ou, em casos raros, no lado oposto do centro e voltado para os prédios. Depois era bater a bola o mais longe possível e jogar. Nesta praceta existiam também guerras de balões de água e com cartuchos de papel (das listas telefónicas) disparados com recurso a um canudo comprado numa loja ali mesmo ao lado. Aquele centro era também o palco das festas dos santos populares, com os vizinhos a descer e a oferecer algo para a festa.

No alcatrão (era uma alegria quando era novo) também existiam muitas brincadeiras pintadas a giz. Não sei se alguém se recorda disto mas era ali que jogava ao “35”, ao “mata”, à “sirumba” e mesmo às “cinco pedras”, jogos que nenhuma criança saberá reconhecer hoje. Esta praceta era também óptima para jogar às escondidas. Já para não dizer que foi aqui que o meu pai me ensinou a andar de bicicleta. E podia ficar aqui largas horas a falar do limão, da bota botilde, do saltitão e de tantas outras coisas que estavam sempre na rua. E o que resta de tudo isto? Apenas as minhas memórias. E as de todos aqueles que cresceram comigo e que ali brincaram.

Este relato parece já ter largas décadas. Mas não! Porque tenho apenas 35 anos. Ou seja, faço parte de uma geração que já cresceu com consolas, computadores e telemóveis. Não da mesma forma que existem hoje mas eram uma realidade disponível para todos. A diferença está no incentivo que tínhamos para estar na rua a brincar em vez de nos isolarmos em casa. Aceito que se fale em tempos diferentes, em realidades diferentes mas isso não justifica tudo. É apenas uma parte do problema e não a sua essência.

Naquela altura também existia bullying (só ninguém sabia o termo), também existiam pessoas duvidosas, drogas, prostituição e todos aqueles problemas que existem hoje e que são bastante mediatizados. Estavam todos perto de nós, até espectáculos em varandas que nunca sabíamos se iam terminar com a morte de alguém. A forma de lidar com as adversidades é que era diferente.

Tal como hoje, os pais também trabalhavam e as crianças tinham actividades extra-curriculares. Uma grande diferença talvez passe pela menor frequência com que as pessoas mudavam de casa, o que fazia com que os vizinhos fossem os mesmos ao longo de muitos anos. E outra diferença era o incentivo para brincadeiras ao ar livre, na rua com os amigos. Algo que se tem vindo a perder com o passar dos anos.

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