16.10.20

será que vai mesmo #ficartudobem?

Recordo-me dos primeiros tempos da pandemia. Dos emotivos vídeos que chegavam de Itália, com pessoas a partilharem música para a vizinhança. Dos aplausos que homenageavam estes e aqueles. Dos aplausos. E até das bonitas bandeiras, quase sempre pintadas por crianças, em que se podia ler algo como vai ficar tudo bem. Mais se seis meses depois de o vírus ter chegado a Portugal, pergunto: será que vai mesmo ficar tudo bem?

Já estivemos fechados em casa. Já ficamos sem empregos. Já fomos obrigados a fechar negócios que eram o sonho de uma vida. Trabalhamos de casa. Estamos com horário reduzido e vencimento cortado. Vamos acumulando dívidas. Vivemos com receio de sermos infectados ou de infectarmos alguém. Já choramos a morte de pessoas por causa desta doença. Já fomos privados de dizer um último adeus a alguém especial por causa desta doença. Mas parece que não pensamos em nada disto.

O #vaificartudobem deu lugar ao #queropossoemando e ao #façoaquiloquebementender. Agora, que se lixe (mas com f) a solidariedade. Que se lixem (igualmente com f) os pedidos que nos fazem. Usar máscara ao ar livre, quando estou junto de outras pessoas? Era o que mais faltava. Ninguém manda em mim. Instalar uma aplicação que não tem qualquer problema para nós? Nada disso! Ninguém me espia, dizem aqueles que têm todas as redes sociais e mais algumas instaladas nos smartphones.

Se nos dizem para fazer, recusamos. Refilamos e falamos mal de tudo e de todos. Se deixam ao nosso critério é porque não sabem mandar nada e só atrapalham. Se dizem para não fazermos algo, fazemos. É a triste realidade em que vivemos num dia em que voltamos a bater o recorde de número de infectados em Portugal.

Bem sei que esta doença não é o maior bicho papão com que temos de viver. Mas tem vários problemas associados. Que temos conseguido evitar até ao momento. Estou a falar de hospitais entupidos de doentes. De pessoas (mais debilitadas) acamadas que necessitam de cama e ventilador durante muito tempo, fazendo com que (em casos extremos) se tenha de escolher entre quem vive e quem morre. Sendo o critério (frio) sempre o mesmo: o mais novo, por mais irresponsável que tenha sido.

Estão a pedir (obrigar) para usar máscara ao ar livre. Estão a pedir (obrigar) a instalar uma simples aplicação. E como não tenho memória curta, tenho presente na memória que ao meu pai foi pedido (obrigado) que fosse para uma guerra que não era sua. E não havia espaço para lamentos nem nada do género. Era calar, ir, sobreviver e tentar voltar sem mazelas físicas ou psicológicas.

Por isso, esqueçam lá essa coisa do #vaificartudobem. É giro para usar nas redes sociais e para pendurar na varanda lá de casa. Na realidade, continuamos a ser umas "bestas" com olhos centrados no nosso umbigo.

14.10.20

ninguém está livre da covid-19. e do suicídio?

Ao longo dos últimos meses, e com uma incidência cada vez maior, todos temos ouvido palavras como: "ninguém está livre da covid-19". E concordo totalmente com esta ideia. Não é preciso muito, ou grandes desleixos, para que uma pessoa possa apanhar o vírus que mudou a forma como olhamos para o mundo e como vivemos.

Por outro lado, nunca ouço ninguém dizer que ninguém está livre do suicídio. E se penso desta forma em relação ao coronavírus, também defendo este modo de pensar em relação à decisão de colocar um ponto final na própria vida. E é disto que me recordo sempre, assim que me deparo com a notícia de que alguém optou pelo suicídio. Como aconteceu agora com Tony Lemos, que todos associamos de imediato aos Santamaria.

Se há coisa que me assusta é entrar numa espiral depressiva que acabe com o pior cenário de todos. E acredito que ninguém está livre deste perigo. Que é dos piores de todos. Porque as pessoas tendem a isolar-se e a esconder aquilo por que estão a passar. E tudo vai ficando cada vez pior, a ponto de se acreditar que a única, e melhor, solução passa por colocar um ponto final na vida. Por mais bela que seja e por mais episódios bonitos que estejam a ser escritos.

Por isso, passo por aqui para deixar um apelo a todos. Estejam atentos a todos os que vos rodeiam. Não descurem qualquer sinal de alerta. Não tenham vergonha de perguntar se está tudo bem. Não tenham receio de que a pessoa fique chateada com vocês por insistirem na pergunta. Se é verdade que pode não ser nada, é igualmente verdade que podem estar a salvar alguém. Podem ser os responsáveis por impedir uma triste história que acaba com palavras fofinhas no Instagram a questionar: "como foste capaz de fazer isto" ou "ninguém imaginava".

6.10.20

afinal, quem é que poupa dinheiro com o teletrabalho?

 Estou em teletrabalho há largos meses. Há mais de seis. E este texto não é um lamento em relação a esse cenário. Porque, verdade seja dita, prefiro estar a trabalhar no conforto do meu lar do que estar a fazer 80 quilómetros diários de carro. Sem esquecer, e aquilo que é mais importante, que posso estar perto da minha filha. Mesmo tendo em conta que não lhe posso dedicar toda a atenção durante o horário de expediente.

Apesar disto, já dei por mim a pensar na realidade do teletrabalho. Afinal, quem é que poupa dinheiro com este cenário? Os trabalhadores? Os patrões? Ambos? Já vi algumas reportagens sobre este tema. Todas elas centradas no trabalhador. Numa delas, uma pessoa dizia, por exemplo, que estava a poupar dinheiro porque não almoçava fora diariamente. Pensei: será que não come em casa as refeições que deixou de fazer fora?

Vou pegar no meu exemplo. Como referi, faço 80 quilómetros por dia. Esta é uma poupança para mim. O carro tem menos desgaste e não passo tempo no trânsito. Podia incluir o valor do combustível, mas é algo que não se aplica no meu caso. Mas mesmo tendo isso em conta, esta é a verdadeira poupança para mim. A partir daqui é um misto de cenários.

Por exemplo, gasto muito mais electricidade, água e gás. A minha profissão obriga-me a ter a televisão ligada durante o trabalho. Tenho o meu computador sempre ligado. Quando, em condições normais, tanto eu como a minha mulher estávamos a sair de casa entre as 7/8 da manhã e chegávamos ao final da dia. Durante essas horas, a casa não tinha qualquer despesa.

Também passei a comprar mais comida para ter em casa. Mesmo levando marmita quatro dias por semana para o trabalho, dou por mim a gastar mais dinheiro no supermercado do que normal. Poupo também os 8 euros semanais que me custava o único almoço que fazia fora. E os cêntimos do café que bebia (quatro vezes por semana) no Pingo Doce, com desconto do cartão cliente.

É certo que tenho algumas poupanças, mas não tantas como às vezes parecem querer mostrar. Por outro lado, dos patrões não se fala. E aquilo que eu gasto em electricidade, água e desgaste de computador, é o que eles poupam. Multiplicando por um número grande de trabalhadores. E disto ainda não vi ninguém falar. Volto a dizer, isto não é uma crítica a ninguém. É apenas uma constatação de factos.