11.11.19

entrevista | ana dias, a única fotógrafa portuguesa a trabalhar para a a playboy: “não foi fácil chegar até aqui”

Conheci a Ana Dias profissionalmente, através de uma entrevista. Não se tratava de apenas mais uma pessoa que entrevistava, algo que ficou provado com a amizade que mantemos desde então. Temos falado sobre muitas coisas e entre conversas de projectos de ambos, dei-lhe a conhecer o meu blogue. Até que lancei o desafio de uma nova entrevista, desta vez para o homem sem blogue. Acho que ainda não tinha acabado a pergunta e a Ana já me dizia que sim.

Depois desta pequena introdução vou falar da Ana Dias, de quem provavelmente já viste fotos, ainda que possas não saber que eram suas. Trata-se de uma fotógrafa portuguesa que consegue ser a única a trabalhar para a Playboy. Até ao momento (e correndo o risco de estar desactualizado no momento de publicação da entrevista) são 45 capas e mais de 150 publicações em todo o mundo. E isto deve encher de orgulho todos os portugueses, porque a cada capa e a cada foto, Ana Dias leva o nome de Portugal cada vez mais longe. E se há quem fale da famosas festas da Mansão Palyboy, Ana Dias pode contar que esteve na casa de Hugh Hefner para jantar e para uma sessão de cinema privada, algo de que poucos se podem gabar. É com orgulho que tenho uma entrevista de uma pessoa tão talentosa no blogue. E sim, prepara-te para a nudez que irás encontrar ao longo do texto.

1989 foi o ano em que tiraste a tua primeira fotografia. Nessa altura já imaginavas o que aí vinha ou era apenas uma forma de passar o tempo? O que pensavas ser nessa altura?
Nessa altura eu tinha 5 anos, só pensava em brincar, ainda não tinha idade para pensar em nada, mas sei que gostava imenso dessa brincadeira que era fotografar.





Em que momento é que percebes que a fotografia vai mesmo ser a tua vida?
Apercebi-me que a fotografia ia ser a minha vida a partir do momento em que fotografei a série intitulada “BIG GIRLS DON'T CRY”, que são fotografias de pinup girls na praia. Quando as coloquei online, rapidamente se tornaram virais um pouco por todo o mundo e aí apercebi-me que seria esse o meu caminho.

Quando é que passas a dedicar mais atenção ao corpo feminino?
Não te consigo dizer exactamente quando é que comecei a dedicar mais atenção ao corpo feminino, porque desde sempre me senti fascinada pelo corpo humano e via o corpo da mulher como uma obra de arte.

“Desde sempre me senti fascinada pelo corpo humano e via o corpo da mulher como uma obra de arte”


E pelo nu artístico?
O nu também sempre me fascinou. Penso que a minha paixão pelo nu começou na faculdade. Quando comecei a ter modelos vivos de nu para desenhar.

Encanto pela fotografia, pelo corpo feminino e pelo nu artístico são comuns a muitos fotógrafos. Mas a verdade é que nem todos podem conjugar isto com a possibilidade de trabalhar para a Playboy em mais de 20 países. Como é que tudo isto se proporcionou?
Sinto-me muito feliz e privilegiada por estar a viver o que sempre sonhei para mim. Não foi fácil chegar até aqui, e mais difícil ainda é manter o nível e não cair de patamar. Para aqui chegar tive que trabalhar muito, ser consistente na qualidade do trabalho e sobretudo ser persistente. Fazer uma fotografia interessante de vez em quando não é difícil, difícil é manter o nível ou, idealmente, conseguir melhorar e crescer todos os dias. O meu segredo é não desistir. Tenho de lutar todos os dias para continuar a fazer aquilo que amo.

“O meu segredo é não desistir. Tenho de lutar todos os dias para continuar a fazer aquilo que amo”


A tua entrada no universo Playboy dá-se através da edição da Sérvia. Foi algo procurado por ti?
Sim. Trabalhar com a Playboy sempre foi o meu objectivo desde que comecei a fotografar. E por isso comecei a estar mais atenta a qualquer oportunidade que me permitisse entrar na revista. Em 2012, a Sérvia lançou um concurso para fotógrafos e é aí que começa toda a minha aventura com a marca.

A Playboy gostou tanto do teu trabalho que te desafiou para um webshow chamado Playboy Abroad Adventures With Photographer Ana Dias. Como reagiste a este convite?
Era a primeira vez que ia trabalhar com a Playboy americana. Foi o começo da realização do meu maior sonho! Chamaram-me para uma reunião na sede da Playboy em Beverly Hills em 2015, e nem hesitei. Nessa altura já colaborava com a Playboy internacional em mais de 15 edições. Demorou uma semana desde o convite até apanhar o avião para Los Angeles. Não sabia exactamente o que se ia discutir na reunião, mas sabia que só podia ser algo bom. Podiam ser tantas coisas: quererem publicar um trabalho meu no site, publicar o meu trabalho na revista... mas era ainda melhor que isso. Era a oportunidade de ter um programa sobre mim, a fotografar para a Playboy e sempre em países diferentes. O “Playboy Abroad” permitiu-me conhecer 24 países num ano e fazer o que mais amo: fotografar a beleza e o power feminino para uma das marcas mais reconhecidas do mundo.




Privaste com Hugh Hefner, um homem que fica para a história, especialmente da área em que trabalhas. Que podes contar sobre os momentos em que estiveste com ele?
Conhecer o Hugh Hefner foi mais um grande sonho tornado realidade. Em 2015, quando tive a reunião nos escritório da Playboy, também tive a oportunidade de visitar Hugh Hefner na sua Mansão em Beverly Hills. Lembro-me perfeitamente da emoção que senti quando o vi pela primeira vez a descer as escadas. Até umas lágrimas me caíram. Não falámos muito porque havia mais convidados, mas tive a oportunidade de lhe agradecer por tudo o que ele fez pela Playboy, pelo convite e de lhe dizer o quão feliz estava por poder trabalhar para a marca que ele criou. Foi mágico poder abraçar a lenda que criou o mundo onde trabalho e que tanto me tem dado.

“Lembro-me perfeitamente da emoção que senti quando o vi [Hugh Hefner] pela primeira vez a descer as escadas. Até umas lágrimas me caíram”


Enquanto alguém que está por dentro da realidade Playboy, que opinião tens desta fase pós Hefner?
Houve muita coisa que mudou depois do Hugh Hefner ter morrido, mas penso que tudo voltou ao que era a essência da marca: ensaios de nu com muita qualidade e artigos actuais, interessantes, provocadores e com a preocupação constante com os direitos humanos. O acontecimento mais triste, após a morte do Hefner, foi o fim da mansão Playboy. Já não existe mais uma mansão Playboy propriamente dita. A propriedade tinha sido vendida quando ele ainda era vivo, com a condição de ele continuar a viver nela até à sua morte. Foi isso mesmo que aconteceu. Com a morte de Hugh Hefner, morreu também a mansão.

Falar da Playboy e de Hugh Hefner quase que torna obrigatório falar da Mansão e das famosas festas. Estiveste em alguma?
Já estive em várias festas Playboy, mas não estive em nenhuma festa na Mansão Playboy em Beverly Hills. Quando estive na mansão, foi a convite do Hefner para jantar e para uma sessão de cinema. Era um evento mais recatado, só com poucos amigos chegados, a sua mulher e eu, que era a convidada. Acho que foi ainda mais giro e especial que uma festa. O que mais gosto nas festas Playboy é de poder conhecer pessoas que sentem o mesmo fascínio que eu pela marca. Também é sempre giro conversar com as personalidades que admiro.






Consegues destacar, no máximo três, mulheres que tenhas gostado mais de fotografar?
Todas as mulheres que fotografei são, de alguma maneira, especiais. Não consigo escolher só três... Mas posso, por exemplo, destacar a Olga De Mar, que mais do que uma modelo excelente, é uma mulher incrível e criei com ela uma bonita amizade.

E qual é aquela que mais desejavas fotografar?
Ui, há imensas, mas consigo dizer que adorava fotografar a Pamela Anderson, por ter sido uma enorme referência na minha adolescência.

Se a pergunta anterior fosse restrita a Portugal, quem é que escolhias?
Sara Sampaio ou Ana Cristina Oliveira. Unicamente porque, do meu ponto de vista, são as duas mulheres mais lindas do nosso país.

“Adorava fotografar a Pamela Anderson, por ter sido uma enorme referência na minha adolescência”


És conhecida profissionalmente por fotografar mulheres muito bonitas. Sendo que também o és, como reagias a um convite para seres fotografada ao estilo das fotos que fazes? Aceitavas?
Muito obrigada pelo elogio! Já tive algumas propostas para ser fotografada, mas para mim, neste momento, é muito mais interessante estar do outro lado da câmara, a tirar fotos. Esse é o lugar onde me sinto mais criativa e feliz.

Já foste considerada uma das 20 fotógrafas a seguir. É o melhor reconhecimento do teu trabalho?
Quando alguém me diz que sou uma inspiração, é claro que fico muito feliz. Mas o maior reconhecimento do meu trabalho é vê-lo publicado. Até agora são 45 capas e mais de 150 publicações em edições da Playboy pelo mundo fora.







E o que sentes quando tantas mulheres ficam felizes por serem fotografadas por ti?
Fico muitíssimo feliz.

Passados estes anos, os teus amigos homens ainda se metem contigo por causa do trabalho que tens?
Sempre! Nada muda.

Estás habituada a correr o mundo em trabalho. Do que tens mais saudades de Portugal?
Eu volto sempre à base. Ainda vivo em Portugal, mesmo tendo que viajar praticamente todos os meses.

“Ainda vivo em Portugal, mesmo tendo que viajar praticamente todos os meses”


Qual o país onde gostaste mais de trabalhar? Ou aquele de que mais te recordas?
Há muitos países onde amei fotografar. Os Estados Unidos é um dos que mais adoro, principalmente o estado da Califórnia. Identifico-me muito com a cultura pop e com a vibe da cidade. Depois destaco as Bahamas, o Japão, a Islândia e Israel.

Além da Playboy, tens algum projecto pensado que possas revelar?
Neste momento estou a trabalhar, para além da Playboy, num novo projecto que será um livro da minha autoria. Espero que 2020 seja um ano de mais concretizações.

Acompanha de perto o trabalho da Ana Dia em www.anadiasphotography.com.

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